sábado, 21 de fevereiro de 2009

Eleitoralismo

Antonio Gramsci
23 de Agosto de 1919
O companheiro Cerri, ao expor as razões do seu abstencionismo, confunde o fato contingente da participação nas eleições com a "fé" parlamentarista.
Ele, como os demais companheiros da seção turinesa, baseia-se numa errada interpretação do programa do Congresso de Moscou da III Internacional.
O programa polemiza com as auto-intituladas tendências revolucionárias que ainda não compreenderam o verdadeiro caráter da ditadura do proletáriado e acreditam possível a existência simultânea do soviete do parlamento, ou seja, da ditadura do proletariado e da ditadura burguesa, do socialismo e da "democracia".
Em suma o programa de Moscou refere-se àqueles países (Alemanha e Áustria) onde existe um sistema soviético; onde os socio-democratas de direita defendem a Constituinte contra os sovietes e convidam os proletários a apoiar o parlamento como o único órgão que pode realizar o socialismo; e onde os centristas (kautiskianos, etc.) tentam fazer com que o parlamento "legalize" os sovietes para chegar a um sistema estatal com duas câmaras, uma política (o parlamento), outra econômica (o congresso dos sovietes).
Na Itália, ainda não existem os sovietes, ou melhor, nem mesmo se iniciou o processo para sua formação orgânica.
Abster-se nas eleições parlamentares não tem um significado sovietista, não tem o valor de "escolha".
Enquanto não for possível escolher, não podemos nos abster de participar das eleições parlamentares, nas quais as forças políticas se dividem e medem forças.
Enquanto não existirem os sovietes, a palavra de ordem "todo poder aos sovietes" é vazia e pode ser perigosa para o êxito da revolução, já que pode desacreditar o próprio movimento sovietista.

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